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segunda-feira, junho 19

Os empreendedores ainda surgem da adversidade

Os empreendedores ainda surgem da adversidade


Fonte : Valor Economico


Os empreendedores que estão surgindo hoje, neste início de um novo século, ainda são produto das mesmas condições e características que fizeram emergir os empreendedores que, no século passado, construíram o modelo empresarial brasileiro.

Possivelmente a diferença mais marcante é que hoje já não são apenas imigrantes que fogem das adversidades e da falta de perspectivas dos seus países de origem. Misturam-se ao atual fluxo de estrangeiros que aportam no Brasil, um significativo contingente de brasileiros oriundos da periferia urbana, e de pessoas que buscam novas regiões para encontrar formas diferentes de sobreviver, especialmente na medida em que o emprego convencional vêm diminuindo.

Prova disto é a recente pesquisa feita pelo Instituto Fernando Braudel, sob a coordenação de Patrícia Mota Guedes e Nelson Vieira Oliveira em 1092 domicílios da periferia da cidade de São Paulo. Entre as inúmeras conclusões obtidas com esta amostragem, vale destacar a que revela que 'o sonho dominante dos moradores da periferia não é o emprego público ou a carteira assinada. A grande aspiração da maioria é ter o próprio negócio e faze-lo prosperar. E por esta razão o comércio nestas regiões fervilha cada vez mais'.

Os dados foram colhidos em quatro bairros pobres da periferia da grande São Paulo, abrangendo Serraria, Diadema e Capão Redondo na Zona Sul; Cidade Tiradentes e Montanhão na Zona Leste. Outra informação digna de registro é que 27% dos lares pesquisados são chefiados e mantidos por mulheres.

A pesquisa foi patrocinada por empresas interessadas em conhecer o perfil dos consumidores de baixa renda, já que parte da sua clientela se situa nesta faixa. São produtores de alimentos, cosméticos e produtos de higiene. Ela procura conhecer melhor um segmento de mercado que vem crescendo e cujo perfil do consumidor muito pouco se sabe.

É interessante observar que estes resultados demonstram um ponto que, insistentemente, temos provocado como debate sobre o tema das origens do espírito empreendedor no Brasil. Pesquisas idênticas com famílias de classe média, ou ricas, demonstram expectativas e desejos ainda direcionados para o emprego formal ou carreiras públicas. E, no elenco de alternativas destes agrupamentos sociais, são consideradas como prioritárias o desejo de vincular-se as grandes corporações multinacionais, empresas estatais ou concursos públicos que ofereçam 'estabilidade de emprego'.

Nas classes mais abonadas o 'conforto' da proteção familiar e do dinheiro fácil geram uma acomodação que termina dificultando que as gerações seguintes entendam que necessitam empreender, como forma de agregar valor ao patrimônio. Além de buscar fontes alternativas de liquidez. Caso contrário sentirão na pele, mas tarde demais, o fato que os lucros obtidos pelos investimentos ou negócios não crescem na mesma proporção do que a família consegue gastar.

As características empreendedoras também têm se destacado em pessoas que mudam de cidade ou região dentro do país. Nordestinos, sulistas, ou pessoas do interior que abandonam suas cidades de origem por alguma dificuldade ou espírito de aventura, tem ocupado um espaço significativo na criação de pequenos negócios em várias partes do país.

Assim também vem ocorrendo com o fluxo mais recente de imigrantes que tem aportado no Brasil, oriundo de países asiáticos ou da América Latina. Estes continuam chegando aqui, literalmente, 'com uma mão na frente e outra atrás', e têm se tornado responsáveis pelo surgimento de pequenos empreendimentos.

Exemplo é o asiático Thai Quang Nghia, que foi salvo em alto mar por um navio da Petrobras e chegou ao Brasil sem falar português e com apenas alguns trocados. Diz ele que 'comeu muito miojo e fruta de final de feira quando chegou aqui, até que conseguiu comprar uma enciclopédia Larousse, que foi a base do seu aprendizado de português'. Isto tudo ocorreu na ressaca do Plano Cruzado, sendo que hoje ele tem uma empresa de grande sucesso na produção de calçado feito com pneus velhos e bolsas.

Uma das possíveis reflexões que podemos fazer de todos estes dados é que a cada dia aumenta a responsabilidade dos pais na orientação do futuro dos seus filhos. Mas, claramente, o modelo de sucesso que valeu para a atual geração adulta já não serve, pelo menos em grande parte, para os que hoje se preparam para ingressar no mundo do trabalho. E também a importância de educar filhos para vida. Com todas as facilidades e dificuldades que ela apresenta. Sem querer poupa-los do processo de auto-aprendizado.

Renato Bernhoeft é presidente da Bernhoeft Consultoria

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