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terça-feira, setembro 26

Acredite: já tivemos nosso campo de concentração...

Acredite: já tivemos nosso campo de concentração


Os livros que abordam a história de Ribeirão Preto não trazem uma única linha sobre o assunto, mas a cidade já teve um campo de concentração para prisioneiros de guerra. Um número indeterminado de italianos e pelo menos cinqüenta alemães ficaram confinados nesse campo de concentração, como mostra a notícia publicada na página 6 da edição de
A Cidade do dia 28 de janeiro de 1943:
“Cincoenta alemães chegaram ontem a esta cidade, sendo internados em Monte Alegre
Procedentes de São Paulo, chegaram ontem a esta cidade, devendo ser internados no campo de concentração de Monte Alegre, neste município, cincoenta cidadãos de nacionalidade alemã. Os italianos, que ali se encontram, serão transferidos para outro ponto do país, devendo, antes, seguir para a Capital da República.”

Destino
A história dos alemães confinados em Ribeirão Preto começa em 21 de julho de 1939. Nessa data, parte de um porto de Hamburgo o luxuoso transatlântico
Windhuk, levando 250 tripulantes e mais de 400 passageiros – casais em lua-de-mel, comerciantes de ouro e diamantes, turistas interessados em participar de safáris.
O destino é a África do Sul e a viagem deveria durar dois meses. Mas muitos dos tripulantes nunca mais voltaram à terra natal, a Alemanha.
O navio já fazia a viagem de volta, no início de setembro, quando, na Cidade do Cabo, na África do Sul, chega a notícia: havia sido deflagrada a guerra na Europa. No dia 1° o Exército de Hitler invadira a Polônia e dois dias depois França e Grã-Bretanha declaravam guerra à Alemanha. O comandante avisa: os passageiros podiam decidir se desembarcavam ou não; não se garantia a chegada no próximo porto, já que o navio encontrava-se em águas territoriais britânicas. A maior parte dos passageiros desembarca. O Windhuk, sob o risco de ser apresado ou afundado por navios inimigos, segue até o porto de Lobito, em Angola, então colônia portuguesa (Portugal mantinha-se neutra no conflito), e lá permanece 78 dias.
Numa noite, em segredo, o Windhuk parte rumo à Argentina, sendo perseguido pela Marinha britânica. O combustível, porém, não é suficiente, e em 7 de dezembro de 1939 o navio chega ao porto de Santos.
Começam, então, três anos de verdadeiras férias para os tripulantes alemães. Subvencionados pelo consulado alemão, vivem sem outras preocupações, curtindo o que o destino lhes havia reservado – as praias de Santos, em vez da carnificina que ocorria no território europeu. Se tivessem retornado da viagem, com certeza todos eles, jovens, teriam sido engajados pelo Exército de Hitler.

Fim de festa
Mas as férias terminam em 31 de agosto de 1943, quando o governo de Getúlio Vargas põe fim à neutralidade e declara guerra à Alemanha, após o afundamento de vários navios mercantis brasileiros por submarinos do Eixo (Alemanha/Itália/Japão). Os tripulantes do Windhuk, apesar de civis, são amontoados em caminhões e levados para um centro de imigração, em São Paulo. Após alguns meses, são distribuídos pelos cinco campos de concentração criados pelo governo brasileiro no interior paulista: Guaratinguetá, Bauru, Pirassununga, Pindamonhangaba e Ribeirão Preto.
Eram, na verdade, fazendas-prisões. O campo de concentração de Guaratinguetá é hoje a Escola de Sargentos da Aeronáutica. O de Pindamonhangaba transformou-se na Estação Experimental de Zootecnia. E o campo de concentração de Ribeirão Preto, instalado na Escola Prática de Agricultura, na fazenda Monte Alegre, é hoje o campus da Universidade de São Paulo.

WINDHUK
Navio de luxo foi comprado pelos EUA

O Windhuk foi lançado ao mar em 15 de outubro de 1936, como o mais luxuoso navio de passageiros da Deutsche Afrika Linien. Tinha 176 metros de cumprimento, 22 m de largura e deslocava até 16.662 toneladas. O nome homenageia a capital da Namíbia, colônia alemã até a I Guerra Mundial – e que, na década de 30, pertencia à África do Sul, integrante do império britânico.
Quando partiu do porto de Hamburgo, naquele julho de 1939, o Windhuk iniciava sua décima terceira viagem. Nunca mais, porém, retornou ao país em que foi construído, a Alemanha. Apreendido pelo governo brasileiro, acabou vendido aos Estados Unidos por cinco milhões de dólares. Rebatizado de USS LeJeune, serviu como navio de transporte de tropas, na II Guerra Mundial e nas guerras da Coréia e do Vietnã.
Quanto aos mais de 200 tripulantes, foram libertados quando acabou a guerra, sem sequer um pedido de desculpas do governo brasileiro – afinal, o Windhuk não era um navio de guerra e todos eles eram civis. Apesar dos três anos confinados, a grande maioria permaneceu no Brasil. As notícias que vinham da arrasada e derrotada Alemanha não estimulavam o retorno.
Durante muitos anos, os alemães se reuniam, todo dia 7 de dezembro, data da chegada no Brasil, num restaurante alemão localizado no bairro paulistano de Moema, fundado, em 1948, por um ex-tripulante – e batizado, naturalmente, de Windhuk.

TESTEMUNHA
Antenor cortou o cabelo dos prisioneiros

A Cidade localizou uma testemunha ocular do campo de concentração de Ribeirão Preto. Antenor Trujillo, 79 anos de idade, há 64 anos trabalhando como barbeiro e cabeleireiro, tinha quinze anos no início de 1943 e era funcionário do Salão Aurora, anexo ao Hotel Aurora, na avenida Jerônimo Gonçalves.
-Desde os 13 anos trabalhava em salões de barbeiro. O dono do Aurora era o Antonio de Morais e o oficial barbeiro era o Primo Fabbris. Um funcionário da Escola Prática de Agricultura, que era nosso cliente, nos contratou para cortar o cabelo dos alemães. Fomos lá eu e o Primo. Lembro que era um prédio térreo, à esquerda de quem entra na fazenda Monte Alegre pela via do Café. Tinha soldados com fuzis na porta, mas não parecia uma prisão, não. Num salão grande havia camas espalhadas, era como um dormitório coletivo, uma espécie de alojamento. Os alemães, todos fortes e loiros, estavam bem à vontade, de shorts e camiseta, não pareciam revoltados com a situação deles. E não pareciam prisioneiros de guerra, recorda Antenor Trujillo.
A estada dos alemães no improvisado “campo de concentração” na fazenda Monte Alegre parece ter durado apenas alguns meses. Pesquisadores que se debruçaram sobre a história do navio Windhuk registram que o campo de concentração de Pindamonhangaba manteve confinados até o final da guerra 244 alemães – número que bate com a tripulação total (seis fugiram de barco quando o navio estava retido no porto de Angola).
Mas, ainda que tenham passado pouco tempo em Ribeirão Preto, pelo menos um alemão foi conquistado pelo afamado chope do Pinguim. Quem recorda o episódio é Antenor Trujillo:
-Às vezes os alemães vinham à cidade, para tratamento médico ou odontológico. Lembro de tê-los visto andando, sempre acompanhados de um soldado, pela região central.
Um dia um alemão convidou o soldado que o escoltava para tomar um chope no Pinguim, parece que ele tinha ouvido falar do chope da Antarctica. E o soldado topou. Lá se foram os dois beber no Pinguim.
Mas para azar deles um repórter do jornal A Tarde viu os dois lá e no dia seguinte publicou um violento texto, criticando o fato de um prisioneiro beber chope acompanhado do soldado que o vigiava.

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